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THEY FIGHT FOR US TOO
Uma poderosa exposição que reúne o trabalho de fotógrafos da Associação Ucraniana de Fotógrafos Profissionais

THEY FIGHT FOR US TOO

Há exposições que documentam eventos. Outros tornam-se lugares de memória.

They Fight For Us Too Reúne o trabalho de alguns dos fotógrafos mais proeminentes da Associação Ucraniana de Fotógrafos Profissionais (UAPP), uma organização que, desde 2013, promove a fotografia ucraniana e representa a sua comunidade profissional a nível internacional. Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, muitos destes fotógrafos têm documentado a guerra desde a linha da frente, transformando a fotografia num instrumento de testemunho, memória e resistência.

A exposição apresenta uma viagem visual que segue diferentes dimensões do conflito. Da destruição das cidades à vida quotidiana da população civil, da perda à esperança, do êxodo à reconstrução, cada imagem revela não só os efeitos da guerra, mas também a extraordinária capacidade humana de resistir.

As fotografias foram publicadas por alguns dos mais importantes meios de comunicação internacionais e homenageadas com prémios de fotojornalismo. No entanto, reunidos neste espaço, deixam de ser meras notícias. Tornam-se um arquivo da memória contemporânea.

O título They Fight For Us Too recorda-nos que a defesa da liberdade, da democracia e da dignidade humana não conhece fronteiras. A guerra está a ter lugar na Ucrânia, mas as suas consequências e os valores em jogo pertencem a todos nós.

Mais do que uma exposição sobre a guerra, esta é uma exposição sobre as pessoas. Sobre os que ficaram. Sobre os que perderam tudo. Sobre aqueles que continuam a acreditar que a memória é uma forma de resistência.

 

A Associação Ucraniana de Fotógrafos Profissionais

Fundada em 2013, a Associação Ucraniana de Fotógrafos Profissionais (UAPP) é uma organização sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento da fotografia profissional na Ucrânia, que promove projetos educativos, culturais e sociais, bem como a representação internacional de fotógrafos ucranianos. A associação é membro oficial da Federação de Fotógrafos Europeus (FEP) e desempenhou um papel fundamental na preservação da memória visual da guerra através do trabalho dos seus membros.

MENSAGEM DA SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Exposição “They Fight For Us Too”

A imagem no cartaz silencia-nos. Não há nada a dizer. O seu significado é absoluto e anula qualquer possível justificação para uma guerra.

Sentimo-lo como uma ferida na nossa própria alma. Este é o poder da arte, mas também há um outro valor nela: de acordar-nos, de sacudir a nossa indiferença. Uma década de guerra pode, insidiosamente, banalizar a dor e a loucura humana. Por isso, é urgente voltar este tema às nossas prioridades e recordar que dez anos de ataque a um país soberano são, acima de tudo, uma eternidade para aqueles que vivem todos os dias o drama da guerra.

A exposição tem, assim, este mérito acrescentado: o de nos despertar para o sofrimento das vítimas da guerra na Ucrânia e, com elas, das vítimas de todas as guerras. Um espanto que cresce hoje, quando os assuntos da atualidade internacional são marcados por novas ameaças e a eclosão de novos conflitos.

O outro lado desta exposição é o trabalho do repórter fotográfico. Vulnerável, apaixonado e destemido. Vários fotojornalistas morreram na guerra na Ucrânia, e a lista, infelizmente, continua a crescer em outras partes do mundo. Juntam-se a uma chamada cada vez mais longa: alguns entraram para a história, como Robert Capa; outros foram perdidos para o anonimato, ou para investigações que nunca estabeleceram a causa de sua morte. Qualquer que seja o resultado, é uma profissão fascinante e extremamente de alto risco.

Muitas vezes, o seu trabalho acaba por ser sequestrado através de «copiar/colar» ou diluído em todas as plataformas de distribuição.

Por todas estas razões, agradeço à Associação Ucraniana de Fotógrafos por ter chamado a atenção do público para este testemunho de guerra; à organização F/SOS — Fotografia, Solidariedade e Serviço Social; ao apoio da Tekever; e ao Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, por acolher as várias iniciativas do F/262 – Festival Internacional de Fotografia.

Por fim, deixo um convite a todos para visitarem esta exposição, aberta até 30 de Agosto.

Que nenhum de nós fique indiferente perante estas imagens.

 

ANTÓNIO JOSÉ MARTINS SEGURO
PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUESA

MENSAGEM DO PRINCIPAL PARCEIRO — TEKEVER

A invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022, transformou profundamente a relação da TEKEVER com o país. Antes de qualquer decisão estratégica, houve uma resposta humana a um povo que lutava pela sua liberdade, soberania e direito a um futuro.

Desde então, a TEKEVER tem trabalhado lado a lado com a Ucrânia, acreditando que a tecnologia deve estar a serviço de proteger a vida. Mas proteger também significa preservar a memória.

Esta é a missão de They Fight For Us Too. As fotografias reunidas nesta exposição testemunham a guerra a partir de dentro, revelando não só a destruição, mas também a coragem, a resiliência e a humanidade que persistem em cada comunidade.

Na TEKEVER acreditamos que documentar também é proteger. Porque o que escolhemos recordar hoje ajudará as gerações futuras a compreender o passado e a defender os valores da liberdade, da democracia e da dignidade humana.

É uma honra apoiar esta iniciativa e ajudar a garantir que estas histórias continuem a ser vistas, compreendidas e preservadas.

Ricardo Mendes
Diretor executivo, TEKEVER

Curadoria

Há fotografias que documentam o presente. Outros tornam-se memória.

They Fight For Us Too Nasceu do encontro entre fotógrafos que optaram por permanecer no coração da guerra para testemunhar a realidade, e um festival que acredita que a fotografia continua a ser uma das formas mais poderosas de preservar a verdade.

Todas as imagens apresentadas nesta exposição trazem consigo uma história de coragem, perda, resistência e esperança. Não procura explicar a guerra, nem oferecer respostas. Simplesmente nos convida a olhar. Ficar com ele. Compreender que a distância geográfica nunca elimina a responsabilidade humana.

Nada disso teria sido possível sem instituições que compreendessem que a cultura também é uma forma de resistência.

A nossa profunda gratidão ao Associação Ucraniana de Fotógrafos Profissionais, pela confiança depositada neste projeto e pelo trabalho extraordinário realizado na preservação da memória visual da Ucrânia; para Lens op de Mens, por acreditar na fotografia como uma língua universal capaz de aproximar as pessoas e as culturas; e para TEKEVER, cujo empenho possibilitou levar este testemunho a Portugal e chegar a novos públicos.

Quando a exposição terminar e as fotografias regressarem aos seus arquivos, o que realmente importa permanecerá: memória.

Porque há imagens que deixam de pertencer ao momento em que foram tiradas.

Eles passam a pertencer à História que escolhemos preservar.

João Carlos

Curador da exposição e diretor artístico do F/262 – Festival Internacional de Fotografia
Diretor da F/SOS – Associação de Fotografia, Solidariedade e Serviço Social

Fotografia e Literatura

Uma fotografia fixa um instante.

A literatura permite que esse instante continue a existir.

Para a apresentação de They Fight For Us Too no F/262, cinco escritores portugueses foram convidados a responder a uma fotografia da exposição. Não para descrevê-lo, explicá-lo ou interpretá-lo, mas para estabelecer um diálogo livre entre a imagem e a palavra.

Cada texto emerge de um encontro com uma única fotografia. Alguns tornam-se ficção, outros ensaio ou reflexão, revelando como a mesma imagem pode abrir diferentes caminhos de leitura e emoção.

Este diálogo entre a fotografia e a literatura amplia o testemunho dos fotógrafos ucranianos, criando novas camadas de memória e mostrando que a arte pode assumir diferentes formas de resistência face à violência e ao esquecimento.

Os textos estão incluídos no catálogo oficial da exposição e foram escritos especificamente para a apresentação portuguesa de They Fight For Us Too.

Categoria: Escritores convidados

  • Ana Bárbara Pedrosa
  • Ana Margarida Carvalho
  • Gonçalo M. Tavares
  • Julieta Monginho
  • Rui Couceiro
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Se a fotografia preserva o instante, a literatura prolonga-lhe a memória

OS ORGANISMOS DE SOLDADOS ELEVADOS RUSSIANOS MENTIRAM NA VILKHIVKA, RECENTE RETAKEN BY UKRAINIAN FORCES NEAR KHARKIV, UCRÂNIA, 9 DE MAIO DE 2022

Na fotografia de Mstyslav Chernov, temos a brutalidade da guerra. Ali jazem os corpos de onze soldados russos. Estamos em 2022 e, para aquela gente, não haverá futuro. Pertencem ao exército invasor, mas é justo dizer-se que travam uma guerra que não é deles. São soldados como peões no xadrez: peças fracas que o rei manda ir à frente, que o rei oferece às balas. O que mais impressiona ali é a crueza: ainda têm todos botas, mas há um que já não tem cabeça. Em vez disso, o pescoço vai dar a uma poça de sangue e gosma, a carne amassada, quase à talhante. Os outros têm cabeças carbonizadas: é gente que, destituída de vida, parece transformar-se em esqueleto. Tudo na fotografia aponta para filme de terror, e o maior terror é sabermos que não é filme e que ainda não caiu o pano sobre a tela.Deitados, os cadáveres têm botas e corpo da cor da terra, fardas da cor da relva. Não deixa de espantar que cada um deles seja filho de alguém, que cada um tenha sido uma criança a dar os primeiros passos – com a vida à frente, como pode cogitar-se um fim em que se é carne para canhão? Na fotografia, nem se vê a aldeia de Vilkhivka: vê-se apenas um bocado de chão com onze vidas em cima – e, dentro delas, tantas mais. Um escritor tende sempre a ver a história atrás de uma imagem, ou então à frente, por isso dentro daqueles rapazes inertes estão também as mães ao longe, que devem gostar tanto de Putin quanto as mães ucranianas.Chernov tirou a fotografia num dia 9 de Maio – Dia da Vitória na Rússia, data em que Moscovo celebra o fim da Segunda Grande Guerra. Esta imagem inerte, quase em silêncio, deixa evidente o contraste: enquanto o Kremlin fazia desfilar tanques na praça pública, imbuída da glória bélica da vitória, os seus soldados apodreciam numa aldeia a cerca de 900 quilómetros de distância. Olhar hoje para o trabalho de Chernov, feito ontem, é saber que se olha para um arquivo, que o impacto é o mesmo das fotografias de Robert Capa em Espanha ou de Nick Ut no Vietname. O fotógrafo enfrentou o horror escancarado, e os homens caídos volvem-se ícones involuntários – são agressores e vítimas no mesmo movimento, e com isso já não são uns homens quaisquer a ver uma série no sofá.Ao aproximar-se, Chernov conseguiu mostrar ao mundo o que existe fora dos gráficos, das imagens com setas que nos dizem onde está um exército e outro. Em vez da distância de um drone, a realidade de formiga, de corpos destruídos – eis a realidade de um exército vencido. E, com isto, o fotógrafo segura o tempo, e regista uma realidade de tal forma bruta e sangrenta que é impossível banalizá-la. O Museu dos Vestígios da Guerra em Ho Chi Min mostra a mesma crueza, deixa as provas materiais do que foi vida a sério, não mero episódio dos livros de história, distantes. Aqui, nem sequer podemos escudar-nos na distância. O ano de 2022 foi há dez minutos, e será daqui a outros dez também.É difícil largar a fotografia, por muito que o que ali está cause repulsa. A imagem perturba, é quase insuportável: deve ser muito difícil ver só ali um inimigo, e não um desgraçado que talvez não quisesse ter lá estado. A sujidade da imagem mostra que na guerra tudo é sujo, não há respostas simples, e que consiste em gente em dois lados a travar guerras em nomes de outros – em nomes de Estados que muitas vezes são carrascos do próprio povo.São onze filhos, isso é certo. Uns poderão ser pais, outros irmãos, outros amantes. Talvez alguns sejam tudo isto. Talvez, do outro lado da fronteira, e querendo tanto que a guerra acabe, ainda haja alguém à espera deles, sem saber que partiram e não voltam. Ali jazem os restos mortais de quem foi gente enquanto a guerra continua — com ela, haverá mais fotografias como estas.

Ana Bárbara Pedrosa

CHUVA SECA

Mãe, quando acordares vais ficar tão orgulhosa de mim. Já matei mais de mil e decepei trezentas cabeças. Deixo-as a secar ao sol, no nosso muro, que é para afugentar mais visitas indesejadas, como vi nos filmes de índios, para que fiquem com tanto medo e não se aproximem do nosso jardim. As formigas arreliam-me, que bicharoco mais insistente, não fazem pausas, não tiram folgas, intrometem-se por todo os orifícios, insaciáveis, levam-me os despojos, roubam-me os troféus de noite, quando não estou a ver. Já enchi o muro de formicida amarelo que guardavas na lata de leite do bebé. Ao fim da tarde, deito-me com os ouvidos na terra, consigo ouvi-los a aproximarem-se, tão lentos, e rastejantes, mas depois olho aquela fileira de cabeças ressequidas e acho que fiz um belo trabalho. Se a menina Oksana visse isto, dava-me um A, tenho a certeza, mas a escola fechou naquele dia em que a poeira dos caminhos subiu até às copas mais altas das árvores e voltou cá para baixo, como uma chuva seca e deixou tudo da cor do nevoeiro. Eu achei tão bonito, mas os adultos parece que não apreciam o inesperado, querem sempre o mesmo, verde na primavera, branco no inverno, que monotonia. Eu fiquei tão feliz quando a escola fechou, assim podemos passar mais tempo juntas, mãe, e com o meu irmãozinho também, e queria que estas férias grandes durassem para sempre, eu a comer compota de abóbora todos os dias até me doer a barriga e começar a ficar com o branco do olho alaranjado. Mas os adultos só sobrancelhas de susto e bocas de pânico, qualquer estrondo deixa-os inquietos, mexem-se em várias direcções, como formigas. Eu gosto de ver quando os rebentamentos fazem alvoraçar os pássaros, parece que se despem as árvores todas ao mesmo tempo, depois regressam, não sei se os mesmos, pode ser outro bando em fuga que se reveza, e andem às voltas pela floresta, a aterrarem em portos que julgam seguros, dantes eram as estações que os faziam migrar, será que ocupam os ninhos dos outros e lhes adoptam os ovos?  Gosto do barulho das asas quando batem muito depressa, como tu, mãe, a rasgar lençóis para fazer ligaduras, que se empapam de sangue no peito do vizinho, ou na cabeça do paraquedista. Gosto de surpresas, não sou assustadiça, como os pássaros e os adultos. E as formigas. A memória é uma cábula muito matreira. A menina Oksana não iria permitir. Por isso fiquei tão feliz, quando acordei de manhã e vi. A surpresa que me preparaste, tal como eu tinha ansiado, um tanque de guerra no jardim, com canhão e torre giratória de verdade. Como adivinhaste que queria um igual ao que ficou capotado no cruzamento lá adiante? Ainda não consigo abrir a escotilha mas tenho treinado todos os dias. Desejo tudo, porque me dás tudo. E tudo o que me dás, te devolverei em dobro, querida mãe. As compotas, o espanto, o caos, as asas despenhadas. Faço tudo como me ensinaste, para te deixar descansar. Precisas tanto de descansar e ando tão vigilante para que nem patinhas de rato ou pernas de aranhiço te possam perturbar. O irmãozinho chora se acorda e crava as unhas nos teus áridos mamilos. Faço tudo como me ensinaste, o tomateiro dá-se bem com o manjericão, as cebolas gostam mais dos espinafres, e o alho é amigo da ervilha. São plantas aliadas, assim mo explicaste. Por isso me apoquentam tanto os pulgões que esmago entre os polegares e corto a cabeça às lagartas com um pedaço de vidro da nossa janela. Foi um falcão desembestado que voou contra as vidraças. Ia a perseguir um drone e desorientou-se. Vazou um olho, e feriu uma asa, andou por aí no jardim, meio zonzo, aos saltos desastrados, sem réstia de dignidade, como uma galinha decapitada, até os gatos lhe saltarem em cima. Não restou pena sobre pena. Já fui ao teu quarto, mas fechei a porta muito devagarinho, e rodei a fechadura como uma escotilha, continuas a dormir tão tranquila, a mãozinha do bebé tão abandonada. Já passaram mais de dez dias, ou serão vinte, que sono tão comprido e talvez me apetecesse dormir, também, deitava-me na tua cama como uma pluma e nem davas por mim, garanto-te, nem me ouvias respirar. Mas depois quem tomava conta do jardim? Quem livrava a horta do exército dos pulgões, das brigadas das lagartas?

Ana Margarida de Carvalho

A MULHER QUE AVANÇA

É isto: os fotógrafos dos casamentos passaram em pouco tempo a ser fotógrafos de guerra. Talvez com as mesmas máquinas e certamente com os mesmos dedos, polegar, indicador, outros dedos anexos que sejam necessários. Mas o olhar mudou. Há agora uma cegueira talvez necessária para que os olhos que veem o horror não percam a cabeça e fiquem malucos, eles mesmos olhos e não a cabeça. Os olhos podem ficar dementes, sim, isso acontece muito aos fotógrafos que retratam o mal em toda a sua extensão; olhos que precisam de ser internados porque colapsaram; uma íris que, dentro da sala inteira do olho, de repente começa a bater contra as paredes do seu próprio sistema orgânico. É preciso evitar que os olhos percam a cabeça. Que os olhos fiquem paranoicos, dementes, que comecem a uivar; é preciso proteger os olhos, sim, mas também é preciso que os olhos dos fotógrafos vejam o que muita gente não quer mostrar, que vejam o que muitos querem esconder.Neste catálogo impressionante de fotografias, qualquer uma dá para ativar esse sistema da empatia que existe nos seres humanos vivos-vivos - porque há seres humanos vivos-mortos, uma espécie de fantasmas que têm a empatia abaixo do mínimo como um carro que quer avançar sem gasolina e sem óleo. A empatia é aquilo que permite a um humano comover-se com outros humanos que não ele próprio. E sim, há humanos que só diante do espelho ligam a ignição da empatia; como gostam de si mesmos.

Estas fotografias são de outro planeta, do planeta que revela, que destapa.

Quando uma senhora já de idade, com um lenço vermelho sobre a cabeça, toda tapada, avança tendo por paisagem não uma bela paisagem natural, de belas e frondosas árvores, essa paisagem que tantos pintores atiraram para as telas, o pôr do sol, as montanhas, os lagos, a bela natureza quieta, eis a paisagem a que nos habituámos a chamar paisagem. Mas por trás desta mulher nada é calmo e nada é natural, se não considerarmos que a destruição é um ato natural do humano e do próprio mundo. Mas talvez seja: o humano produz destruição como produz CO2, produz ódio como produz CO2; somos máquinas de ódio, nós? Individualmente e coletivamente? Se sim, que desgraça.Pois a verdade é que, nesta foto, a paisagem é metálica e de construção; casas aparentemente normais, casas de família, destruídas, o teto desabou, alguns andares desabaram e provavelmente este é o resto material de algumas mortes humanas que aqui não estão visíveis. O que foi feito para uma família jantar, a mesa da cozinha, esse lugar mítico onde pais e avós se juntam com crianças, é agora uma espécie de ruína moderna, uma ruína sem qualquer aura como as ruínas antigas. Não se trata dos restos de uma cidade com dois ou três mil anos; trata-se de ruínas recentes, ruínas que têm por vezes dias. Ruínas feitas agora mesmo, ruínas ainda quentes, quentes como uma qualquer refeição, mas aqui é a refeição do diabo, quentes por causa das bombas, quentes por causa da dinamite, quentes por causa da destruição, quentes por causa do ódio.O ódio e a destruição produzem um calor que não é calor de férias e banhos refrescantes; é um calor que faz uma velha senhora avançar pela rua tentando não olhar para o lado, para as casas destruídas. E sim, que esperança dá também esta foto. É preciso avançar e o humano continua a avançar independentemente das circunstâncias. As crianças continuam a correr, os homens e as mulheres a avançar nos seus vários ofícios, e esta senhora já de idade ali continua a andar, não sabemos para onde, mas só esta caminhada, só este movimento - só esta ausência da imobilidade desesperada, só esta recusa de uma nostalgia que afunda - faz desta caminhada simples de uma mulher ao lado da destruição de casas, uma senhora heroína.Não são precisas grandes façanhas, não se trata de convocar Ulisses para começar o seu ofício de herói à segunda-feira, como um qualquer funcionário público da secção de heróis. Os heróis estão hoje na Ucrânia, em todo o lado, e eis esta heroína de quem não se sabe o nome mas que recusou sentar-se ou deitar-se no chão e desistir. É preciso continuar a andar mesmo para quem avança com dificuldade. Eis o que é esta fotografia: uma mulher corajosa avança ao lado de uma destruição material que não chegou a atingir a potência do coração humano, que resiste, resiste, resiste.

Gonçalo M. Tavares

O GATO E A CRIANÇA NÃO PENSAM NO ONTEM NEM TEMEM O AMANHÃ

A mala cheia aguarda à porta de um prédio. Talvez já ninguém desça para a levar. O céu é para todos pela primeira vez laranja, reflete o fogo que toma conta da terra. Um míssil penetrou o asfalto deixando a cauda de fora. Outro abriu uma cratera no meio de um quintal; um homem está dentro dela a ver o que lhe sobrou. Um garrote improvisado aperta a perna escorrente de uma mulher. Uma outra tem sangue a emergir da ligadura que lhe envolve a cabeça e diz com o olhar: este sangue que me salpicou braços e pernas não é apenas meu. Há uma luz acesa nas dezenas de divisões expostas de um prédio que perdeu a fachada. Desnudada, a intimidade de um quarto: a cama com os lençóis afastados pela urgência da fuga, uma mesa de cabeceira, um brinquedo. Apontada à rua, em exibição para quem passa, uma vida que foi de alguém. Sempre à vista, a lotaria da guerra: um prédio intacto e, ao lado, um que rebentou depois de bombardeado. Noutro edifício, uma imagem de cristo na única parede que sobeja. E, junto aos móveis que se precipitam pela ausência de fachada, a embalagem de detergente da roupa que ficou de pé onde tudo o resto explodiu. Um edifício ao qual falta um canto. O sincelo que se derrama das entranhas esventradas de um outro ao qual já não se reconhece forma. Carros virados ao contrário, como insetos. Um olhar de pânico, um gato agarrado ao peito da dona, um homem acocorado tapando os ouvidos. Uma mulher que chora a destruição dentro do apartamento em que vive. Uma mulher que não consegue chorar a casa destruída, porque tudo quanto vê são cinzas. Um homem, entre os escombros, chorando ao lado de corpos cobertos por lençóis. Tantas histórias em tão poucas imagens. Raparigas que, de branco, se casam com rapazes que vestem à militar, perguntando-se, talvez, de bouquet na mão, até quando. Não faltam cruzes improvisadas com galhos de árvores, marcando sobre as cinzas os locais onde a terra guarda os que não resistiram. A unir pontes outrora de betão, há tábuas frágeis, como a vida. No solo, um capacete furado por três balas conta o fim de uma entre tantas que ali terminaram. Um grande urso de peluche repousa, sentado, onde os combatentes descansam deitados – talvez lhes lembre os filhos deixados com as mães. Há quem tome conta dos animais – a guerra despreza-os sempre mais ainda do que às pessoas. Uma cabra de pelo queimado emerge de um bunker, perdeu a cor, mas o olhar está vivo. Na guerra tudo se mata. Até um tanque morreu, está derretido diante de uma fachada igualmente derretida. Reconhece-se apenas pelo canhão, réstia única de dignidade estendida aos céus tomados pelo fumo resultante das explosões e dos incêndios. Um homem que caminha para o meio das chamas. Gente que procura nos despojos. Sobre o asfalto, um caderno, um peluche, uns jeans e uma harmónica. E, à volta, a terra preta, preta, preta. Um campo de girassóis queimados. Um carro com mais buracos do que chapa. E, bombardeado, um bairro de lata que nunca imaginou viver maior miséria. Valas abertas para receberem corpos. Gente ajoelhada a chorar volumes cobertos por plásticos negros, uma e outra vez, acabando abraçada ao plástico frio. Um corpo sem rosto abandonado sobre as cinzas – ninguém saberá quem foi. A criança que fotografa com o telemóvel o que a própria memória nunca há de esquecer. E o que ficará nas lembranças dos combatentes que caminham para a morte e, ainda assim, sorriem para a lente do fotógrafo? O mesmo que, depois de anos a trabalhar em casamentos, capta agora a mosca pousada numa folha verde caída sobre um oceano de sangue, ou os meninos vestindo camuflados de adulto e segurando metralhadoras de brincar, ou as flores que cobrem as campas improvisadas para receberem crianças que já não brincam, ou a melancia que sacia vários homens, ou os garrafões vazios nas filas para o reabastecimento de água, ou o míssil travado pela cofragem de um pilar, que deitou tudo abaixo, menos aquele pilar, impedindo-o de chegar adiante e de atingir outro corpo, eventualmente mais macio. Ou o homem que lê um livro por entre as ervas. Ao fundo, o que terá sido uma casa: um monte de tijolos e escombros empilhados – com a vida feita entulho, o homem lê. Fotografam-se as minas que aguardam, pacientes, por pés incautos. Mostra-se o homem velho que decidiu ir à luta nas trincheiras. A ponte pousada sobre as águas. A coluna de fumo que emerge entre as casas. O cãozinho que nasceu no meio dos bombardeamentos. A vida que, apesar, ainda existe em tantos olhares. O hangar escuro, que, de tão perfurado, parece um céu estrelado. O homem estendido na marquesa, sem nariz, recebendo cuidados. Um corpo mais, nu, mas com a cabeça vestida por ligaduras, sem olhos ou boca visíveis. E a criança que, naquele hospital, nasce mesmo ao lado dos que morrem. E, sempre, sempre, os que cuidam e os que choram. Também os que se fotografam com os soldados, os louvam e lhes pedem autógrafos. Um pássaro que atravessa o horizonte. Um cigarro que se fuma ou um café que se bebe entre disparos. Os tantos que não sobreviveram. A roda gigante que não tombou e outras promessas de alegrias. A vida carbonizada e, no final, um gato que se espreguiça sobre um tanque de guerra e uma criança que anda de baloiço numa cidade em escombros.

Rui Couceiro

Onde nasce a liberdade

Ficámos nós, galinhas.

Os outros, incluindo a mão que nos alimentava, invisíveis.

Em vez da mão com a sua voz, zunidos lá no alto e um objecto estranho, incomestível, alheio ao nosso chão.

O que se passa?

Não sabemos. Olhar para cima está-nos vedado pela curteza do pescoço. Nem precisamos, no chão está o sustento. Para os lados tão-pouco olhamos. Veríamos outras como nós, galinhas, bichos, gente. Alguém que busca a vida entre os destroços. Sobreviventes. O pânico, o silêncio enganador de um engenho letal.

Somos breves, não sabemos o que é a duração.
A fome e o momento, a fome e os bicos na terra, em busca de grãos, minhocas, restos de vegetais, restos do que cair desse céu que nunca vimos. Até aqui, dejectos metálicos, alimento para quem? Para o fogo que atinge seres indefesos, prontos a explodir.

Os bicos na terra, os olhos na terra. As mãos que às vezes descem para nos degolar, o sangue a escorrer do nosso corpo e dos pulsos torcionários, a mesma cor vermelha, o mesmo cheiro.
É assim com todos os seres vivos. A uns, como nós, calhou o chão, a outros o mar, a outros as alturas. Quanto mais alto, mais humano. Quanto mais alto, maior a queda. Os zunidos lá em cima, vindos de uma mão ainda mais alta, mais sangrenta, mais humana, uma fome furiosa.

Invisíveis, agora. Escondidos num recinto onde esperam que a morte não os veja, como nós. Corpos, zunidos, artefactos, todos caídos das alturas para o chão comum dos sacrificados.

Deixaram-nos livres junto à ameaça que a nós não incomoda, do céu sabemos pouco, do chão sabemos tudo. Quem caiu desamparado pode aprender connosco a procurar os grãos, as minhocas, os restos do céu que os torcionários lhes deixaram.

Cada corpo um silêncio, cada corpo um soldado na batalha, defendendo o seu chão. O lugar onde nasceram, o lugar onde crescem espigas e caules de girassol e eles próprios. E também nós, galinhas, tão férteis como o chernozem comum, precárias portadoras da liberdade contra a fome de domínio, do sonho contra o medo, do sossego contra as armas.

Sobreviventes, os que restam.

Escondidos num recinto onde esperam que a morte não os veja, buracos escavados sob o solo fértil. Quanto mais alto mais humano, a arma arremessada, o medo. Quanto mais baixo mais humano, talento contra a ira sedenta de sangue e a seiva das gramíneas, o medo, a ousadia.

Todos acossados, luta constante entre ser e não ser.

A nós calhou o chão, onde nascem os caules, onde se deitam aqueles que deixaram de ser.

Assim com os países, os povos que os habitam, quem entoa as melodias tão entranhadas na terra como as raízes, a língua, a liberdade.

Ficámos nós, galinhas, e este chão que sustenta, canta e fala, através das raízes.

Vozes que não abdicam, que não caem se formarem um coro.

Vozes que entoam a liberdade a várias cores, a várias línguas.

Julieta Monginho

Ficha Técnica

Exposição
THEY FIGHT FOR US TOO

Curadoria
João Carlos

Organização
F/262 – Festival Internacional de Fotografia

Produção
Associação F/SOS - Fotografia, Solidariedade e Serviço Social

Em parceria com
Associação Ucraniana de Fotógrafos Profissionais (UAPP)

Parceiro principal
TEKEVER

Parceria Internacional
Lens Op de Mens (Bélgica)

Design
JA Design Studio

Instalação
Andreia Vasconcelos, Cássia Mendes, Flávia Sardinha, João Agostinho, João Carlos, Lúcia Torregiani, Paulo Plaza

Local
Centro Cultural e de Congressos Caldas da Rainha

Datas
18 de julho a 30 de agosto de 2026

Entrada
Gratuita

©2026 Associação F/SOS – Fotografia, Solidariedade e Serviço Social